2:59

       petróleo barato, gasolina cara

    como os bancos destruíram €40 mil milhões

       como meio mundo anda a roubar o outro meio

você está na classe média? ganha mais ou menos que a maioria?

o presente envenenado do Orçamento do Estado


e esta dívida paga-se?


Ufa!

SiLeNce aNd sOUnD § music for pleasure...


♰ Today the Rain is Purple

r.i.p. Prince Rogers Nelson

§ I never meant to cause you any sorrow 
   I never meant to cause you any pain 
   I only wanted one time to see you laughing 
   I only want to see you laughing in the purple rain 
   purple rain, purple rain
   I only want to see you bathing in the purple rain 

   I never wanted to be your weekend lover 
   I only wanted to be some kind of friend 
   baby I could never steal you from another 
   it's such a shame our friendship had to end 
   purple rain, purple rain
   I only want to see you underneath the purple rain 
   honey, I know, I know, I know times are changing 
   it's time we all reach out for something new, that means you too 
   you say you want a leader, 
   but you can't seem to make up your mind 
   I think you better close it 
   and let me guide you into the purple rain 
   purple rain, purple rain
   I only want to see you, only want to see you §






O Candidato.


Noray Manuel Almeida - Legislativas 2015
O Candidato esteve de volta este ano para denunciar os verdadeiros (segundo ele), problemas do país. Continuo a achar que formar Ninjas, sim ninjas, seria a opção mais viável e abrangente para as múltiplas questões que o país atravessa e irá enfrentar. Peço-vos que atentem para: "scolar"; "ibecies"; "... pontos esses que são nada de concreto..."; "... jaula para políticos..."; entre outros.

Feliz 2016!
Votos sinceros.


Rest in peace Lemmy Kilmister §

28 | 12 | 2015 ( Ian Fraiser Kilmister )
Pequeno extracto da sua vasta obra.

Born to create drama ๏̯͡๏

Porque admiro imenso o trabalho desta equipa criativa de marketing finlandesa - TBWA\Helsinki, decidi partilhá-lo com o universo bloguista. Vale mesmo a pena ver!


directed by Rogier Hesp
 



want more drama.

Party girl.

http://farm4.static.flickr.com/3494/4044706019_68975b41cd_m.jpg

"Party girls just want to have fun. Yet they also don't want stalkers or creepy perverts chasing them around either. Just how do you find the perfect balance between shaking your booty and keeping your dignity as a fun-loving, sunshine-sharing party girl? It's possible––just remember that your dignity needs to be your number one priority, then you can add in plenty of fun."                              

E pur non si muovono


Há alguns dias atrás, estive a ler uma notícia sobre um clérigo irlandês acusado de excomunhão por ter sugerido que, no futuro, poderia vir a ser permitida a ordenação de mulheres (http://www.independent.ie/national-news/irish-cleric-threatened-with-excommunication-for-suggesting-women-priests-a-possibility-3358147.html). Por inofensivo que o episódio possa ser comparativamente à restante história da Igreja Católica, não pude evitar que me viessem à lembrança as palavras do Papa Bento XVI quando, num discurso, Sua Santidade apresentou as suas desculpas em nome da instituição pela violência e abusos praticados ao longo dos séculos. É que, estão a ver, compreende-se por qualquer definição historicamente informada da palavra “religião” que esta outra palavra, excomunhão, tem um significado muito preciso e muito feio. Do conceito costumeiramente associado ao pedido de desculpas, que é o de arrependimento, e refiro-me, fique claro, a um arrependimento real e produtivo, a uma verdadeira abjuração de erros passados, não se ouviu nem sílaba, nem ninguém ousaria imaginar que a tanto chegasse o sucessor de São Pedro e líder da Santa Madre Igreja, para a qual a palavra “arrependimento” é a mais importante das conhecidas pela raça humana conquanto que, evidentemente, aplicada à parte dessa mesma raça que não foi abençoada pela graça directa da divindade. A quem possa sugerir que a relativa equivalência entre as duas noções trás à luz mais as minhas más vontades próprias que as incúrias alheias, poderia fazer lembrar que há entre elas não só abismos de pronunciação, mas ocasionalmente, e dependendo do contexto, muralhas de significado, assim se verificando uma vez mais, por este como por outros métodos, como são inteligentes as palavras e burras as pessoas. Nem menos diriam os próprios portadores do sacerdócio, os quais, tanto quanto me lembro, nunca me ensinaram a ajoelhar no altar com desculpas, mas com súplicas de penitência, e cujo líder benemérito não consigo imaginar a dirigir-se ao fiel rebanho com estas últimas, mas apenas e só com as primeiras. Para quem duvide deste ponto, Sua Santidade deixou claro que se recusava a condenar os seus antecessores. Como entendo que essas desculpas visavam toda a humanidade, e não as vítimas reais das atrocidades mais notórias, uma vez que estas estão já longe de palavras que lhes possam valer, sinto-me no direito de lhes responder. Pela minha pequena parte, e não posso falar por mais ninguém, não as aceito. E quero explicar porque é que estas não me parecem associadas a uma autêntica penitência, não por prazer em dar notícias que toda a gente já conhece, mas pelo prazer da fundamentação, que é, afinal, e aqui sim as semelhanças fonéticas são enganadoras, a concorrente oposta e antitética do fundamentalismo. Em primeiro lugar, tanto quanto é do meu conhecimento, a doutrina da infalibilidade papal, porquanto ditada pela graça divina, não foi, nem poderia ser, alterada. E assim sendo, não vejo sentido em pedir desculpas por ter razão. Em segundo lugar, tendo a sorte de viver numa época e de num lugar comparativamente livres das garras espirituais e do fogo sagrado, e também das garras de metal e fogo das tochas, com que estas pessoas nos conduziam, e nessa medida capaz de ver claramente e sem grilhetas que não as que me impõem as abundantes limitações da minha mente e do meu espírito, sendo que as da carne não me incomodam tanto, para além de que já se obcecam suficientemente com elas os membros da Igreja por mim, tenho que reconhecer que, conforme os acontecimentos não se cansam de demonstrar, o nosso grande poeta se enganou, e os tempos mudam mas as vontades nem por isso. Basta para confirmar esta última realidade verificar que a Igreja continua a condenar e a desencorajar o uso de preservativos em zonas do mundo devastadas pela Sida, sendo neste momento um dos obstáculos às medidas de prevenção que se têm tentado tomar nessas regiões. Por último, as palavras de Sua Santidade fazem-me lembrar de uma coisa muito importante. É que as desculpas são devidas, e eles sabem-no. Quando eles pensam nas barbaridades cometidas, não pensam na vileza e ignorância daqueles padres antigos, nem em quanto a instituição que representam evoluiu. Eles pensam “Ups”. Eles sabem que são os mesmos. Eles sabem o que está entranhado na pedra esmorecida dos santos nas igrejas e nos Pais Nossos de cada domingo. E que não se tratam de produtos de outros tempos, ou de desvios desafortunados de doutrinas transviadas, mas de consequências directas e naturais de tudo aquilo que eles representam. E por isso ainda não ouvi desculpas que cheguem. Mas eu serei mais magnânimo que o seu deus misericordioso. Não lhes exijo penitências nem lhes rogo pragas de inferno. Não lhes desejo, aliás, mais do que aquilo que eles próprios afirmam devotamente desejar, quando garantem que abandonamos este pobre invólucro terreno para ascendermos à companhia do progenitor eterno na paz do céu. Por mim, podem ir indo.

Hermano Moura

Ubi bene, ibi patria

"O tempo está incerto...está doentio.
As pessoas não se entendem. Quando não há dinheiro, não andam bem.
O sistema está corroído! Está no fim... Temos que aguentar."

À memória de um cavalheiro irrepreensível:



Quando eu era uma criança, o meu sitio preferido no mundo inteiro era o clube de xadrez. Adorava o jogo, e ia lá jogar todos os dias, depois da escola. Entrava-se por uma portinha, passava-se a loja de pasteis de chaves (às vezes, comia-se um pastel), subiam-se uns degraus, desembocava-se numa sala antiga com filas de mesas e tabuleiros e alguns velhotes debruçados sobre os respectivos jogos. Quando comecei a frequentar o sitio, alguns dos velhotes, cheios de boas intenções, tentaram ensinar-me e ajudar-me a melhorar. Foi em vão, porque quando tentavam dizer-me alguma coisa do género “tens que tentar dominar o centro do tabuleiro”, eu ficava curioso: “porquê?”, e eles perdiam a paciência. Creio que tomavam como insolência aquilo que era genuína curiosidade da minha parte. Por outro lado, julgo que eu era demasiado novo para entender a generosidade e boa vontade com que eles tentavam ensinar-me, e que devia era ficar calado e ouvir. Sempre tive esse problema: gosto de saber coisas, mas nunca gostei que me ensinassem nada (continuo a ser assim, estúpido). Foi por essa altura que conheci e comecei a jogar com o senhor Carvalho. O senhor Carvalho, que, a não ser que os pais se tivessem lembrado de o baptizar com o nome próprio de Senhor, devia ter outros nomes que nunca conheci, era um cavalheiro benevolente, de pele manchada pela idade, que esfregava a careca pensativamente quando se preparava para me arruinar a barreira de peões cuidadosamente construída. O senhor Carvalho, como professor, tinha uma paciência de ouro: nunca me tentava ensinar nada, mas deixava-me aprender. Em vez de me explicar porque era importante dominar o centro do tabuleiro, deixava-me fazer jogadas parvas e ver por mim próprio o resultado. Uma vez, para me ensinar como se dava cheque-mate com cavalo e bispo, pôs um bispo e um cavalo e os dois reis no tabuleiro e desafiou-me a pensar. Não se limitou a descrever-me a teoria ou a indicar-me num livro os passos necessários. Pensei durante séculos até me sair fumo pelas orelhas e, finalmente, lá consegui. Ora, isso significa que eu aprendi realmente como se dava mate com bispo e cavalo, e porque era importante dominar o centro do tabuleiro. O conhecimento que adquiri, muito ou pouco, adquiri-o com pleno direito a ele. Não memorizei simplesmente o conhecimento de pessoas mais inteligentes que eu sem o entender bem. Não fiquei apenas a saber como se fazia, mas porque se fazia assim. Há uma diferença, às vezes subtil, mas incrivelmente fundamental, entre o conhecimento superficial que, muito frequentemente, é ensinado nas nossas escolas e universidades, e este tipo de conhecimento verdadeiro sobre as coisas, seja no que for. Isto para além de ter aprendido e desfrutado o verdadeiro sentido do jogo, que não é decorar teoria mumificada num livro, mas tentar usar o cérebro. Ou seja, o senhor Carvalho era um grande Professor. Eu aceitava-lhe sempre os desafios, ano após ano, jogo após jogo, e tenho, em retrospectiva, que auto-admirar um pouco a minha persistência. As partidas acabavam, ingloriamente, com as minhas precauções defensivas frustradas por alguma armadilha táctica que eu não tinha entrevisto, alguma peça menor a deambular pelo tabuleiro num lugar ridículo, a minha dama prestes a sofrer algum destino cruel. Era nesta altura que o senhor Carvalho me piscava o olho, sorria sardonicamente e dizia “vamos dar esta como empatada, meu amigo?”. O raio do velho. Lembro-me de uma ocasião em que, depois de olhar para o tabuleiro a pensar durante algum tempo, se virou para mim a sorrir: “o meu jovem amigo está a preparar-me uma armadilha bem matreira”. Eu, embora não visse armadilha nenhuma, fiz um ar modesto de quem tinha sido desmascarado. Passado umas jogadas, lá estava o meu rei apanhado nalguma Revolução Francesa de peões maldosos e bispos pouco cristãos, e o senhor Carvalho a propôr-me o empate. Entretanto, porque o tempo nunca fica no mesmo lugar e nós também não, fui deixando de poder aparecer por lá e perdi o hábito de jogar. Retomei, há uns tempos, o gosto pelo jogo, e recomecei a praticar, contra o computador, e na internet. Mas não é a mesma coisa. O pessoal da internet, quando me apanha com as defesas arruinadas, os planos aniquilados, a dama a balouçar à vertigem da inexistência, nunca me sorri a propôr o empate. Portanto, quando me achei desenferrujado e em boa forma, lembrei-me de visitar o clube, onde não entrava há anos, ver se o meu amigo continuava por lá, para lhe propôr umas partidas em honra aos velhos tempos. Foi quando andava a pensar nisso que soube, por telefone. O raio do velho tivera a ousadia de sofrer uma paragem cardíaca. Para mim, fez de propósito. Deve ter sabido da minha recente boa forma, e preferiu não ter que me dar a desforra. Perdeu por desistência, o que me consola muito pouco: dava tudo para poder voltar a jogar com ele. Aliás, quando me ponho a pensar nisso, acho que nem precisava de lhe ganhar para me sentir satisfeito: bastava-me o empate.



Hermano Moura

"What Life Is For" - David Fonseca 012


 

A million stars up in the sky
We watch them live, we watch them die
Now who can tell how this will be?
Now are we fools when we believe?
So listen
I never felt like this before
And i feel no guilt for wanting more
I'll take all my chances here with you
And i can tell you feel it too
So let's not hide it, i won't hide it anymore
Who knows what life is for?
So take my hand
We'll make this happen
It's real, i'm in love with you
And then you stepped out of my screen
I'm awake inside my dream
Tears roll backwards to the light
A rush of love, i feel alive
So listen
I'm in the back waiting for you
And i can tell you feel it too
So let's not hide it, i won't hide it anymore
Who knows what life is for?
So take my hand
We'll make this happen
It's real, i'm in love with you
A million stars up in the sky
Now can you tell me which one am i?
I never felt like this before
And my heart keeps wanting more
Then let's not hide it, i won't hide it anymore
Who knows what life is for?
So take my hand
We'll make this happen
It's real, i'm in love with you.

O Acordo


Sou especialista em palavrões. Não nas subtilezas da sua ciência linguística e complexidades da sua etimologia, que ascendem aos pináculos do saber erudito, mas realmente em dizê-los. Sei acentuá-los e decliná-los conforme a circunstância, o tom de tristeza incrédula ou resignada para os funerais, a cólera para os jogos de futebol, e todas as variantes e gradientes intermédios ou improváveis a que a ocasião obrigue. E encontro sempre o palavrão mais adequado. Sinto-me mesmo, em virtude disso, portador de um certo saber cultural de valor incalculável, ainda que de reputação duvidosa, na medida em que não há nada tão culturalmente único e verdadeiramente característico como a forma de cada cultura usar os seus palavrões, assim se vê a confirmação da célebre teoria do senhor Sapir e do senhor Whorf. Não se trata de ser mal-educado. Pelo contrário, tenho é educação suficiente para poupar os outros a discursos escusados, e, porventura, insuficientes, quando posso resumi-los a uma ou duas palavras que me escorregam pela língua quase sem pousar e dizem tudo. E tenho, também, educação que chegue para estar mais preocupado com o que digo que com as palavras que uso. No entanto, há alguns broncos que me acusam, por vezes, de não ter noção da civilidade e das circunstâncias, em vez de me perguntarem porque não me conformo a elas. Portanto, tenho deixado de dizer palavrões e limito-me, agora, ao aceno silencioso, ao encolher de ombros e a arquear as sobrancelhas sem proferir palavra. Ora, um destes assuntos que me suscita o uso colorido da lingua é o famoso novo Acordo Ortográfico, com o qual tenho tido que lidar um pouco na minha área de estudos.  Eu não quero parecer um reaccionário, e não se trata de resistência à mudança.  Também não se trata de patriotismo. Podem queimar a bandeira nacional à vontade, que eu não me aborreço, porque a bandeira não me serve para nada. Mas a língua uso-a todos os dias.  E gosto tanto dela e sinto-a tanto como minha que, quando a alteram, é como se me reescrevessem um pedacinho da alma sem me pedirem opinião. De forma que não vos sei dizer o que penso sobre o assunto, mas posso dizer-vos como me sinto. Sinto-me incomodado e tenho mesmo vontade de dizer um palavrão, mas, como expliquei, agora já não digo palavrões. Para além de não saber se os devo dizer com as consoantes mudas que deveras sinto. De forma que, se me virem por aí, com ar resignado, sem dizer nada, já sabem o que quero dizer.

Hermano Moura

As Dores do Mundo


Assinalamos recentemente a passagem de dez anos desde os eventos de onze de Setembro de 2001. Quero que as minhas primeiras palavras ao começar este artigo sejam, para que não possa ser mal interpretado no que escreverei de seguida, de pesar profundo pelas vidas perdidas e de condolências sinceras aos que as amavam. Entretanto, este artigo não é exclusivamente uma expressão dos meus pêsames aos que sofreram na tragédia. Tenho que manifestar também o meu assombro por, apesar de todas as vezes que se falou no onze de Setembro desde então, nunca ter, em todos estes anos, ouvido, que me recorde, uma discussão real sobre as razões que levaram aos atentados. Creio que isto acontece devido à manipulação da imprensa e às pessoas atribuírem os ataques aos actos psicóticos de fundamentalistas religiosos e maníacos homicidas. Não há duvidas que o fundamentalismo religioso desempenha um papel importante. No entanto, se nos dermos ao trabalho de ouvir integralmente um dos famosos discursos de OsamaBin Laden, verificamos que ele faz apenas duas referências às suas crenças religiosas, uma no início, que é a longa oração que faz antes de começar o discurso, e outra no fim, afirmando a sua convicção na lei de Alá como a melhor das leis e como o melhor caminho para o povo americano. No resto do discurso, em vez de Alá e de devaneios lunáticos homicidas, fala sobre os ataques americanos à independência dos povos do médio oriente, expressa a sua admiração por Kennedy e analisa a corrupção do sistema politico americano. E, é curioso, quando vejo na televisão as imagens de muçulmanos a pegar fogo à bandeira americana e a pontapear a fotografia do presidente dos Estados Unidos, nunca ouço as palavras "cristão" ou “infiél”. Ouço sempre "assassino". Isso leva-nos, ou devia levar-nos, forçosamente, a pensar nas causas de todo o ódio. E deviamo-nos lembrar, porque é importante que nos lembremos, de coisas que são do conhecimento público relativamente à intervenção americana na política do médio oriente, tais como:

- Para debilitar a União Soviética, na altura da guerra fria, os EUA tentaram incitar uma guerra entre esta e o Afeganistão. Para esse fim, forneceram armas aos extremistas da facção de Hekmatyar, o que tornou impossível a formação de um governo estável na região.

- Os EUA apoiaram Israel na chacina de libaneses a ponto de impedir as Nações Unidas de forçar um cessar fogo israelita, embora o Líbano contasse já milhares de mortos. Depois, com o apoio dos EUA, um regime não democrático tomou conta do poder no Líbano. Quando os populares se revoltaram, os EUA bombardearam aldeias e vários pontos que consideraram focos da revolta.

- No Irão, em 1953, os EUA organizaram um golpe para tirar do poder o então primeiro ministro Mohammad Mosaddegh, que tinha sido eleito democraticamente, e colocaram em seu lugar o Xá, um ditador tirânico. Este Xá servia-se de uma policia de estado treinada, ela própria, pelos EUA.

- Quando o Iraque tentou invadir o Kuwait, as forças americanas da Guerra do Golfo provocaram estragos e massacres tão desproporcionados e excessivos, inclusivamente civis, que mesmo os oponentes de Saddam Hussein tomaram posição contra os EUA.

- Os Estados Unidos apoiaram o Iraque e Saddam Hussein por ocasião da invasão do Irão, impedindo as Nações Unidas de actuarem e fornecendo Antrax e armas químicas ao Iraque.

- Os EUA forneceram armas a várias nações islâmicas em conflito, muitas vezes a ambas as partes dos conflitos, alimentando assim as guerras.

- Os EUA apoiaram e realizaram transacções comerciais com governos autocráticos e tirânicos que oprimiam os povos no médio oriente

- No Sudão, os EUA bombardearam uma fábrica de produtos médicos que fornecia cerca de metade da produção nacional de medicamentos sudanesa. Milhares de pessoas morreram devido à escassez de coisas como vacinas e antibióticos. Os Estados Unidos alegaram, acredita-se que falsamente, que se tratava de uma fábrica de produtos químicos. Não existe certeza absoluta se era ou não porque os Estados Unidos impediram a investigação das Nações Unidas
- Os EUA incitaram e encorajaram conflitos entre estados islâmicos, para evitar que estes países se pudessem vir a unir

- Os EUA apoiaram e treinaram a Al-Qaeda quando esta servia o seu propósito de combater a União Soviética. Foi quando os Estados Unidos tomaram o lugar destes últimos como força invasora que principiou o conflito.

- As forças militares americanas classificadas como ajuda internacional nunca trouxeram até à data melhorias significativas nas regiões que supostamente estariam a ajudar.

- Na primeira metade do século XX, eram os países europeus a colonizar os países islâmicos. Esta colonização originou repercussões até aos dias de hoje. No entanto, nesta altura, os povos do médio oriente não tinham nada contra os EUA, porque a opressão vinha da Europa.

- Em suma, como diz Gwynne Dyer: “O ocidente criou o médio oriente actual, dos seus regimes podres às suas linhas fronteiriças ridículas, e fê-lo num completo desrespeito pelos desejos das populações locais. É realmente um problema que a maioria dos governos Àrabes sejam autocracias corruptas que geram o ódio e o desespero nos seus próprios cidadãos, o que por sua vez alimenta o terrorismo contra o ocidente, mas foi o ocidente que criou o problema.”

Estes são apenas alguns dos factos conhecidos publicamente, aos quais haveria a acrescentar ainda outros, e também, concerteza, coisas que não são conhecidas e que ocorreram e ocorrem na completa penumbra. Ou seja, o que é surpreendente não é que o onze de Setembro tenha acontecido. A mim o que me admira é como não aconteceram mais. Sinceramente, não sei quantas destas coisas era preciso fazerem-me até eu me tornar terrorista. Não sei quantas vezes era preciso vir uma potência estrangeira depôr um politico que eu e os outros cidadãos tivéssemos elegido para pôr no seu lugar um ditador sanguinário, ou quantos filhos meus era preciso matarem por motivos económicos, até eu me tornar insensível aos civis inocentes e fazer o que pudesse.
E, portanto, eu sei do extremismo religioso. Mas, como dizia Umberto Eco no Nome da Rosa, quer se aja em nome do céu de Alá ou em nome do paraíso de Deus, estas coisas acontecem porque existe o inferno aqui na Terra. Retratam os radicais islâmicos a encomendarem a alma a Alá antes de se matarem, como que a sublinharem a raiz do problema. Mas quantos de nós, se nos fossemos suicidar, não encomendaríamos a alma ao nosso Deus, sem ser preciso sermos fanáticos religiosos? Sim, toda a gente sabe dos extremistas religiosos. Mas ouçam, eles nunca andaram a chatear ninguém até lhes terem sido dados motivos para o serem.
Quero concluir como comecei, manifestando os meus sentimentos pelas vitimas da tragédia horrível do onze de Setembro. O meu coração chora por eles. Mas chora também pelos milhares incontáveis de muçulmanos mortos pelos ataques terroristas do governo americano, embora estes últimos não costumem ser chamados assim.
De forma que, quando as imagens na televisão mostram as ruínas do World Trade Center e os cemitérios de vitimas inumeráveis, para me relembrarem da malvadez e monstruosidade dos terroristas, a mim relembram-me uma coisa diferente. Que só há, realmente, um traseiro em que a aguarrás dói: o nosso.


Hermano Moura

Guia do explorador intergaláctico para a cultura do planeta Terra:

Estimado Extra-Terrestre,

Se está a ler estas linhas é porque a espécie, à qual pertenço sem grande entusiasmo, que outrora habitou este planeta, se encontra extinta, como era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, viesse a acontecer, tal como aconteceu a todas as que existiram, a todas as que existem no momento em que escrevo, e a todas as que existirão, assim nos ensina a ciência. Consciente que chegaria o dia em que exploradores de outros planetas viriam a descobrir as ruínas da nossa civilização, dediquei-me a escrever-lhe estas linhas, não em papel, que tão facilmente se perde, se queima, se gasta e se destrói, mas em minúsculos pixels e bits de informação, que resistem obstinadamente à intempérie e ao esquecimento, como o comprova o desespero de tantas celebridades e adolescentes sem bom senso. Portanto, deixo esta mensagem para si, caro alienígena, que chegou ao nosso pobre velho planeta azul, tão pequenino que por pouco não o via, mais especificamente a esta faixa de costa marítima a que um dia chamámos Portugal, tão estreita que por pouco a sua nave espacial não aterrava no oceano, para que, quando vier a desenterrar as nossas cidades, desempoeirar os vestígios do nosso quotidiano, investigar os cadáveres fossilizados das nossas paixões, possa entender um pouco melhor a nossa cultura e as nossas artes.

Se fizer algumas escavações perto deste local onde lhe escrevo, na outra margem do rio que provavelmente já não existe, encontrará uma grande estrutura de metal, que não é um símbolo fálico destinado aos nossos rituais ancestrais de acasalamento e fertilidade, mas aquilo que designamos por antena emissora de televisão. Valerá a pena desenterrar as gravações que conseguir, para ficar com uma ideia das coisas que gostamos de ver, das quais passo a fazer um resumo:
- Telejornais: uma outra forma de telenovelas, estes são programas que outrora tiveram o objectivo de informar o público.
- Reality Shows: estes são programas em que nos é dada a oportunidade de observar pessoas sem carisma nas suas vidas quotidianas e conversas banais. Parece-me que se atingiu recentemente um novo patamar com este tipo de programas, quando surgiu um que consiste num concurso de culinária, inteiramente baseado no teste da prova dos alimentos feitos pelos concorrentes, embora a nossa tecnologia, infelizmente, ainda não permita a transmissão da sensação de paladar pela televisão. Ou seja, é um pouco como ver um programa sobre morcegos a avaliarem musica feita unicamente com ultra-sons.
- Programas apresentados pela Bárbara Guimarães: a Bárbara é dois dos maiores vultos da nossa televisão.
- Televendas e concursos tipo "Quem Quer Ganha": alguns dos programas mais interessantes e eruditos da nossa programação, aconselho o seu visionamento atento. 

Também não muito longe daqui poderá desenterrar as ruínas da nossa biblioteca municipal. Na nossa literatura, produziu-se um fenómeno curioso quando os adultos passaram de incentivar as crianças a ler a roubarem-lhes os livros para os lerem eles. Afinal, quando eles diziam que as crianças deviam ler mais, o que queriam mesmo era que houvesse mais livros para crianças publicados. Isto não é nenhuma crítica aos livros em si, até porque adorei os livros da série Harry Potter, e não posso opinar sobre os livros Twilight porque nunca os li, mas não deixa de ser um fenómeno interessante. Claro que também há literatura para adultos, como a Margarida Rebelo Pinto, mas, uma vez, li algumas páginas dela, e depois enfiei uma faca no fígado, porque, se vou ser torturado daquela maneira, prefiro fazê-lo como um homem a sério.

Infelizmente, a pintura é um tema sobre o qual não estou minimamente informado e não me interesso muito, pelo que não posso adiantar grande coisa ao meu estimado explorador interplanetário. No entanto, por aquilo que apanho do que me rodeia, creio que não erro muito se disser que os pintores temem de tal forma a beleza clássica, e estão tão obcecados com serem vanguardistas, que há anos que se entretêm a pintar as coisas mais destemidas e estranhas que conseguem imaginar, para poderem ser intelectuais e modernos. Creio que o público em geral de não-entendidos tem, como eu, a sensação, talvez não muito injusta, de que, se Miguel Ângelo ressuscitasse, e pintasse alguma coisa, seria ridicularizado e humilhado pelos críticos e pelos outros pintores até se aninhar em posição fetal debaixo de uma cama.

Na música também se produziu esse fenómeno, por exemplo em peças para aparelhos de rádio. A ideia destes músicos é que, se fizerem algo que ninguém consiga compreender, vão ser génios incompreendidos. Contudo, na música, isto adquiriu uma expressão menor, e o fenómeno mais relevante é precisamente o oposto. Boa parte da musica actual, longe de ser feita para pessoas com a pretensão de serem intelectuais, parece antes feita para quem quer parecer-se com alguém que sofreu uma lobotomia. Aliás, em muitos casos, não é sequer música, porque não é feita por músicos. É feita por produtores. É fácil de fazer, e vende imensamente. Seria como os hamburgers, se estes fossem feitos especificamente para pessoas às quais tivessem retirado cirugicamente o cérebro e posto em lugar dele o cérebro de um chimpanzé. E, por azar, se tratasse de um chimpanzé não muito inteligente.

Falta-me falar sobre o cinema. Mas aquilo que teria a dizer sobre os filmes é tão semelhante ao que já disse noutros pontos deste artigo, que não sei se vale a pena. A máquina de fazer dinheiro estende os tentáculos e apodera-se de tudo. O que acontece é que, entre o dinheiro e a arte, o dinheiro é claramente a via mais directa para ter sexo com prostitutas minimamente aceitáveis. E o dinheiro, ao contrário da arte, constrói impérios, e está do lado de quem tem o poder. Assim, não deveria ser surpresa, por exemplo, que sejam os produtores a criarem, em boa parte, os filmes, tal como acontece com a música. Se um aspirante a escritor escrever um guião genial e o enviar para Hollywood, e tiver a sorte dos produtores ficarem tão fascinados com a qualidade do trabalho que decidam contratá-lo, aquilo que acontece é arranjarem-lhe um lugar a escrever as partes de diálogo do filme que eles querem fazer, que está estudado para vender o mais possível, mas não necessariamente para não ser intragável. Talvez transpareça demasiadamente destas linhas que o papel dos produtores e corporações na minha concepção mental do mundo é semelhante à que os judeus tinham na concepção do Hitler. Talvez eu esteja a ser demasiado agressivo. Mas eles também podiam ajudar e resolverem parar de serem seres sub-humanos e sem alma que conspurcam tudo aquilo em que tocam. Os produtores, admitirei, são importantes e, sem eles, talvez estivessemos a chafurdar num tipo de lama diferente mas não forçosamente melhor. Só que devia haver um certo equilíbrio nas coisas. E sempre que tenho um vislumbre do poder que eles têm, da influência doentia que têm sobre toda a nossa cultura, e da confiança ilimitada que depositam na bronquice do cidadão comum, sinto que devíamos lutar conforme pudermos contra o estado actual das coisas.

Não me alongo mais. Vou despachar-me porque quero ir ouvir um cd novo, que comprei. Na publicidade, o cantor aparece rodeado de mulheres em bikini, e disseram-me que ganhou um concurso de televisão, portanto, tenho a certeza que a música só pode ser fantástica. E, a seguir, vou ao cinema ver um filme. Enfim, caro viajante de outro planeta, é este o inventário da nossa civilização que lhe deixo para que possa ser feita justiça à nossa memória quando da nossa existência apenas restar cinza e pó e nada, e, porventura, uma lágrima a escorrer na face da lua que, olhando tristemente um mundo sem humanos, talvez pense de si para si, à semelhança das mães que vêem os filhos irem presos, que nós, lá no fundo, não éramos maus rapazes.



Hermano Moura